25 de ago de 2008

DEFICIÊNCIA E IDENTIDADE




O nosso nome é algo que não escolhemos, mas que carregamos e que faz parte de nós por todos os caminhos de nossa vida.
O primeiro nome, no entanto, não é nossa única identificação, temos também o nome da nossa família, que nos garante o sentimento de pertencer a algo – nesse caso, um espaço familiar. O primeiro nome nos distingue, o segundo nos iguala.
Mas, na vida, vamos ganhando outros nomes. Quem nunca teve um apelido? Qual o motivo desse apelido? Ter um apelido pode ser bom, amistoso, ou pode ser ruim, dependendo do valor que esse apelido carrega.
Existem ainda outros nomes, nomes que se relacionam com nosso fazer, e que são essenciais para a construção de nossa identidade: estudante, professor, terapeuta ocupacional, psicólogo, mãe, pai, irmão, filho etc. São nomes que também nos fazem pertencer a algo, a uma categoria, com a qual nos identificamos.
E assim vamos construindo nossa identidade: com nomes que nos são atribuídos, outros que escolhemos, alguns que vamos abandonando ao longo da vida (mas que são parte de nossa história)... os nomes que carregamos são muito importantes na nossa constituição como sujeitos.
Antes de eu me chamar eu já era chamada por aqueles que estavam à minha volta – do que eu era chamada se tornou aquilo pelo que me chamo. Pensar em nós mesmos com outro nome dá uma sensação de estranheza, como se não fosse mais você. Assim, os nomes que me são atribuídos vão se tornando parte daquilo que sou, parte de minha identidade.
Podemos dizer, então, que a identidade não é um fenômeno individual, mas um fenômeno social, que se desenvolve nas relações entre as pessoas. E também não é algo imutável, pois o homem é um ser em movimento, em constante aprendizado. Assim, somos nós mesmos, somos aquilo que somos, mas aquilo que somos se enriquece, modifica, acrescenta...
Mas porque falo nisso? Porque aqui quero discutir a importância das palavras, dos nomes atribuídos e escolhidos, e, particularmente, dos nomes atribuídos à deficiência e às pessoas que constroem sua vida nessa condição peculiar.
Se pensarmos no nascimento de uma criança com deficiência, a primeira palavra que lhe é atribuída, o nome, já vem normalmente adjetivada pela deficiência (muitas vezes o nome deficiência vem antes do nome próprio – antes de ser o João, ele já é o Down). Assim, não há identidade para além da deficiência, essa condição é algo que fará parte do individuo. O mesmo acontece, embora não da mesma maneira, com as deficiências adquiridas – quem sou eu, será que sou o mesmo de antes? A reconstrução da percepção de si, do seu papel na sociedade, passa pela reconstrução de sua identidade na condição da deficiência.
Ora, se pensarmos nos nomes que são atribuídos às pessoas com deficiência – incapazes, coitados, anjos, problemas, doentes, excepcionais etc., podemos entender o impacto desses na construção ou reconstrução da identidade – do que me chamam? Que valor é atribuído a esse nome? Que portas esse nome me abre ou fecha? Que auto-imagem me permite construir?
O que nos reporta à terminologia utilizada para designar essa parcela da população; não mais o “deficiente”, substantivo totalizador, não mais o “portador de deficiência”, afinal a deficiência não é algo que se porta, como um documento. “Pessoa com deficiência”, essa é a forma mais adequada, pois a deficiência não é um apêndice, mas algo que faz parte do sujeito, algo que o identifica tanto quanto outras coisas (o nome, a atividade, os gostos, características pessoais...).
O que nos leva a outros termos – especial, com necessidades especiais – esses são os termos da negação – é uma pessoa com deficiência, mas é como se não fosse, porque é especial. A deficiência, apresentada como algo indesejável, não deve ser nomeada; assim, ao chamar o sujeito de especial foge-se do confronto com sua real condição, que obviamente é incômoda, gera estranheza, desconforto. Afinal ninguém quer ser uma pessoa com deficiência intelectual, mas todos gostamos de nos sentir especiais, não é?
Nomear corretamente é uma tarefa importante, nem sempre fácil, mas essencial para as pessoas com deficiência. Nomes exprimem significados; significados permeiam atitudes; atitudes desencadeiam ações.

Profa Dra Celina Camargo Bartalotti
Terapeuta Ocupacional



Para ler mais sobre identidade:
CIAMPA, A. C. In: Lane, Silvia. (org.) Psicologia Social: O Homem em Movimento. Psicologia e Sociedade, v. 19, p. 17-18, 2007
CIAMPA, A. C. A Estória do Severino e a História da Severina - Um Ensaio de Psicologia Social. 1/8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2005. v. 1. 248 p.

21 de ago de 2008

PARA FALAR DE DEFICIÊNCIA E COTIDIANO

Este é um tema bastante amplo sobre o qual a cada dia construo um novo olhar, um novo conceito, novos caracteres deste quebra-cabeça do vivo.
Existem temas bastante polêmicos que atualmente vêm me contaminando, de forma que pequenas intrigações e inquietações me fazer pensar naquilo que há algum tempo sugerimos neste blog tratar. Iniciamos com o grande tema “RETRATOS DO COTIDIANO”, e esta palavra me inspira a querer saber do que disponho para esse dia a dia. Como é possível fazer um retrato, uma fotografia de algo que pode acontecer e realmente fazer a diferença e quem sabe constituir-se como uma experiência?
Um pouco disso aconteceu por duas semanas seguidas nas quais pude acompanhar dois grupos de adolescentes e jovens com deficiência intelectual, numa jornada que dificilmente uma família que mora num extremo da cidade faria: cruzá-la para simplesmente chegar a um museu e ver quadros.
É... mas não foi bem assim, conto com um Programa Educativo existente na Pinacoteca do Estado de São Paulo, que recebe Públicos Especiais, o PEPE, que com seu formato oferece um espaço educativo onde a arte e cultura aproximam-se da condição que cada um tem de se apropriar do tema sugerido.
E agora eu pergunto se isto (o programa que oferece adaptação de materiais do museu) e aquilo (a minha disponibilidade e a de uma equipe que sustenta o propósito de acompanhar pessoas com deficiência em seu cotidiano e desenvolvimento, de assumir um grupo de garotos para cruzar a cidade através de trens metropolitanos) não se conectassem, que construção do cotidiano existiria?
É por isso que eu digo: “TENHAMOS CLAREZA DE NOSSAS POSSIBILIDADES E DE NOSSAS DISPONIBILIDADES PARA PODERMOS OFERECER BONS ENCONTROS SOCIAIS, EDUCATIVOS E CULTURAIS À PESSOA COM DEFICIÊNCIA EM SEU DIA-A-DIA”. São destes, e de outros pequenos fazeres que a vida se constrói.

Barbara Cristina Mello
Terapeuta Ocupacional