16 de abr. de 2010


INCLUSÃO SOCIAL E MULTICULTURALISMO
Celina Camargo Bartalotti

Inclusão social tem sido um dos temas mais recorrentes na atualidade. Seja no âmbito do trabalho, da escola, do lazer, discute-se o princípio de que é importante garantir que todas as pessoas possam desfrutar dessa condição tão desejada – a de incluídos. Mas será que se tem clareza do que isso significa realmente? Afinal que princípios norteiam esse objetivo tão nobre?
Falar em inclusão social é, principalmente, falar em sociedade para todos; e “todos” é uma palavra que não admite exceção: “todos” significa TODOS mesmo. Já começamos a entender porque tanto se fala em incluir e porque isso, às vezes, parece muito difícil, senão utópico.
Vivemos em uma sociedade acostumada a classificar as pessoas por etnia [1], credo, origem, condições sócio-econômicas, condições físicas ou psíquicas; mais do que isso, acostumada a atribuir diferentes valores às pessoas enquadradas em cada uma dessas categorias. E valores negativos atribuídos a determinadas categorias geram exclusão social, ou seja, geram movimentos de afastamento, de rejeição, de recusa de oportunidades, de eliminação – excluir nada mais é do que tentar eliminar, senão da vida, pelo menos da convivência. Incluir é, portanto, o contrário disso – é aproximar, é conviver com igualdade de direitos e oportunidades.
E como esse tema se relaciona à questão do multiculturalismo? Segundo o dicionário Michaelis[2], multiculturalismo se define como a prática de acomodar qualquer número de culturas distintas, numa única sociedade, sem preconceito ou discriminação. Paulo Freire, no seu livro “Educação como Prática da Liberdade [3]” afirma que o multiculturalismo não se constitui em uma justaposição de culturas, mas na liberdade conquistada de convívio e respeito a cada cultura, o que só é possível quando diferentes culturas crescem juntas e não em constante tensão. E isso, ressalta Paulo Freire, não é algo natural ou espontâneo, mas fruto de uma ação que implica decisão, vontade política, mobilização, organização de cada grupo cultural com vistas a fins comuns. Assim, falar de multiculturalismo é ir além da constatação de que existem várias culturas convivendo no mesmo espaço ou tempo histórico, mas entender que essa convivência implica em respeito, igualdade de oportunidades, trocas sociais, ou seja, implica em verdadeira inclusão social.
Bem, já definimos inclusão como o movimento de construção da sociedade para todos, e multiculturalismo como a possibilidade de convivência e expressão de diversas culturas em uma sociedade, sem discriminação ou preconceito. Falta pensar nos mecanismos que possam promover essa situação – temos que falar aqui em mecanismos relacionados às políticas públicas e aqueles relacionados à convivência entre as pessoas.
É preciso que sejam desenvolvidas políticas públicas que garantam a efetiva participação social e, ao mesmo tempo, o legítimo direito de viver de acordo com sua cultura em um meio marcado pela diversidade. Cabe ao poder público definir políticas de eliminação de barreiras, sejam elas lingüísticas, religiosas, de costumes, de tal forma que cada cidadão tenha possibilidade de viver plenamente.No que se refere à convivência entre as pessoas, isso já é uma ação mais ligada aos nossos movimentos de aproximação ou afastamento em relação a aqueles que considero diferentes de mim e, por isso, menos valorosos, ou perigosos. Falamos aqui do que se convencionou chamar de barreiras atitudinais, ou seja, aquelas barreiras invisíveis que levantamos entre nós e os outros – essas devem ser derrubadas por cada um em seu dia-a-dia.

[1] Etnia é o conceito utilizado em substituição ao conceito de raça. Entre os homens, raça existe apenas uma, a Humana.
[2] http://michaelis.uol.com.br/
[3] FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 21 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992

30 de jul. de 2009

A INCLUSÃO SOCIAL DA CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA:

REFLETINDO SOBRE O “SER CRIANÇA” NA CONDIÇÃO DA DEFICIÊNCIA

Por Celina Camargo Bartalotti

One O'Clock.....
Upload feito originalmente por charlotte.morse

A análise do “ser criança” na condição de deficiência envolve compreender dois aspectos: a concepção de criança e a concepção de deficiência. Vivemos em uma sociedade que vê a criança como um “vir-a-ser”, como um indivíduo em formação que se prepara para ser algo que ainda não é. O presente da criança, então, mostra-se como possibilidade, como uma base para o que ela será no futuro. E quando pensamos na criança com deficiência? Como se dá o olhar sobre essa criança que foge ao padrão esperado, ao desejado; uma criança que contraria, em primeira instância, o sonho, em uma sociedade marcada pela busca de uma perfeição, tantas vezes inatingível?

Essas são as questões que nortearam o arquivo que disponibilizamos aqui, apresentado no IV Congresso Brasileiro de Reabilitação, em junho de 2009.

3 de jun. de 2009


QUEM TEM O DIREITO DE ESTAR NA BALADA?


Da BBC Brasil: Discoteca na Espanha tem noite exclusiva para deficientes


Domingo é dia de matinê especial em Barcelona. Uma das discotecas mais badaladas da cidade espanhola reserva a noite para que portadores de deficiências mentais possam dançar e paquerar livremente. (...) A matinê especial funciona há um ano e foi criada pela Fundação Ludalia, que auxilia portadores de deficiências mentais. A festa, que começa às 17h30 e termina às 21h, é exclusiva para pessoas entre 18 e 45 anos com Síndrome de Down, paralisia cerebral e outras deficiências.
Mãe de um portador de deficiência mental, a diretora da fundação, Consól Ferrer, afirma que o projeto nasceu por causa da falta de alternativas de lazer para estas pessoas. Segundo ela, alguns lugares "tratam os deficientes de maneira infantil". A ideia da matinê especial surgiu em 2001. A primeira tentativa, no entanto, fracassou quando os organizadores tentaram criar uma noite de integração entre deficientes e pessoas sem deficiências. "Foi um desastre. Ali ficou claro que eles precisavam de um espaço próprio. Eles têm a mesma vontade de dançar, se divertir, estar com amigos e paquerar, como qualquer outro jovem", afirmou à BBC Brasil a monitora Ruth Ruiz. A diretora da Fundação Ludalia também afirma que a experiência fez com que eles decidissem criar uma noite exclusiva para os jovens deficientes. "Sei que parece uma contradição, fazer uma noite exclusiva quando pedimos integração. Mas, misturar jovens deficientes com os que não são para que façam amigos e arranjem namorados, não é um objetivo realista", afirma.
Reportagem completa em:

http://musica.uol.com.br/ultnot/bbc/2009/05/22/ult2628u574.jhtm


Pois é, logo teremos baladas para obesos (afinal, eles podem se sentir intimidados entre magros...); baladas para muito altos, ou muito baixos...
Por que será que a tentativa da “balada inclusiva” fracassou? Será porque os “sem deficiência” ficaram incomodados com a presença dos diferentes? Não se sabe, isso a reportagem não conta.
Diz a diretora da Fundação (e mãe...): “misturar jovens deficientes com os que não são para que façam amigos não é um objetivo realista”...
Aparentemente jovens “deficientes” (SIC) só podem ser amigos de outros jovens “deficientes” e de preferência com o mesmo tipo de deficiência – observem que a tal balada era apenas para pessoas com deficiência intelectual.
O pior preconceito é aquele que se esconde atrás do discurso da beneficência e da proteção: não queremos que eles se sintam rejeitados no mundo cruel, assim vamos criar mundinhos só para eles, pois entre os iguais ninguém perceberá que sua presença, na verdade, é um inconveniente.
É, temos ainda muito o que caminhar para poder, um dia, falar em sociedade realmente inclusiva...

6 de mar. de 2009

sobre iguais e diferentes...


Igual-desigual
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.


Comentando: é desse reconhecimento de que cada ser humano é impar que brota a nossa capacidade de acreditar em cada um deles como possibilidade...

24 de nov. de 2008

VÍDEO SOBRE DEFICIÊNCIA E INCLUSÃO




Entre o ser e o estar,
Entre a idéia e a concretude,
As ações do cotidiano que se perpetuam,
Inclusão, uma escolha de vida.

Barbara Cristina Mello
Terapeuta Ocupacional


Este vídeo foi produzido com a ajuda de muitas pessoas, pois queríamos que diferentes olhares pudessem compartilhar aquilo que fazemos em nosso dia a dia quando acionamos na relações do fazer e do ser.
Agradecemos especialmente a todos os fotógrafos que colaboraram com este projeto, cedendo suas imagens tão preciosas.
Obrigado a todos!

29 de out. de 2008

Terapia Ocupacional - em busca da complexidade do simples




A Terapia Ocupacional é uma profissão da área da saúde, que trabalha com aspectos bastante particulares e, ao mesmo tempo, aparentemente simples da vida humana – as atividades realizadas pelas pessoas em seu cotidiano.
Digo aparentemente simples porque para aqueles que realizam suas ações cotidianas sem grandes dificuldades, ou que encontram, por si, soluções para os obstáculos que vão encontrando ao longo do seu caminho, pensar que um profissional dedica uma vida de estudos e intervenções para compreender atividades, rotinas, cotidiano, pode parecer até banal.
Mas quando pensamos naquelas pessoas que, pelos mais variados motivos, encontram-se de alguma forma impedidas de exercer plenamente suas potencialidades, pessoas que enfrentam obstáculos para realizar aquilo que para nós é tão simples, começamos a nos aproximar da complexidade da Terapia Ocupacional.
Eu construí, há algum tempo, uma frase que venho repetindo ao longo da minha vida profissional, quando quero expressar o que, para mim, é a essência da profissão: ser terapeuta ocupacional é acreditar, incondicionalmente, na possibilidade do outro, na sua capacidade de construir formas de viver plenamente seus sonhos.
E é por acreditar na possibilidade do outro que podemos compreender a complexidade existente naquilo que é, em essência, simples – andar, alimentar-se, trabalhar, brincar, dançar, usar um computador, pintar, vestir-se, banhar-se... ações tão banais e ao mesmo tempo tão cheias de significado na vida de cada um de nós.
Só quando nos deparamos, por exemplo, com alguém que não consegue levar o próprio alimento à boca, dependendo de outro para realizar uma atividade tão íntima como alimentar-se, é que percebemos que as coisas simples do cotidiano são, essencialmente, aquelas que nos significam como sujeitos.
Possibilitar ao outro (re) tornar-se sujeito de sua própria vida – isso é ser um terapeuta ocupacional.
Celina Camargo Bartalotti
Terapeuta Ocupacional

25 de ago. de 2008

DEFICIÊNCIA E IDENTIDADE




O nosso nome é algo que não escolhemos, mas que carregamos e que faz parte de nós por todos os caminhos de nossa vida.
O primeiro nome, no entanto, não é nossa única identificação, temos também o nome da nossa família, que nos garante o sentimento de pertencer a algo – nesse caso, um espaço familiar. O primeiro nome nos distingue, o segundo nos iguala.
Mas, na vida, vamos ganhando outros nomes. Quem nunca teve um apelido? Qual o motivo desse apelido? Ter um apelido pode ser bom, amistoso, ou pode ser ruim, dependendo do valor que esse apelido carrega.
Existem ainda outros nomes, nomes que se relacionam com nosso fazer, e que são essenciais para a construção de nossa identidade: estudante, professor, terapeuta ocupacional, psicólogo, mãe, pai, irmão, filho etc. São nomes que também nos fazem pertencer a algo, a uma categoria, com a qual nos identificamos.
E assim vamos construindo nossa identidade: com nomes que nos são atribuídos, outros que escolhemos, alguns que vamos abandonando ao longo da vida (mas que são parte de nossa história)... os nomes que carregamos são muito importantes na nossa constituição como sujeitos.
Antes de eu me chamar eu já era chamada por aqueles que estavam à minha volta – do que eu era chamada se tornou aquilo pelo que me chamo. Pensar em nós mesmos com outro nome dá uma sensação de estranheza, como se não fosse mais você. Assim, os nomes que me são atribuídos vão se tornando parte daquilo que sou, parte de minha identidade.
Podemos dizer, então, que a identidade não é um fenômeno individual, mas um fenômeno social, que se desenvolve nas relações entre as pessoas. E também não é algo imutável, pois o homem é um ser em movimento, em constante aprendizado. Assim, somos nós mesmos, somos aquilo que somos, mas aquilo que somos se enriquece, modifica, acrescenta...
Mas porque falo nisso? Porque aqui quero discutir a importância das palavras, dos nomes atribuídos e escolhidos, e, particularmente, dos nomes atribuídos à deficiência e às pessoas que constroem sua vida nessa condição peculiar.
Se pensarmos no nascimento de uma criança com deficiência, a primeira palavra que lhe é atribuída, o nome, já vem normalmente adjetivada pela deficiência (muitas vezes o nome deficiência vem antes do nome próprio – antes de ser o João, ele já é o Down). Assim, não há identidade para além da deficiência, essa condição é algo que fará parte do individuo. O mesmo acontece, embora não da mesma maneira, com as deficiências adquiridas – quem sou eu, será que sou o mesmo de antes? A reconstrução da percepção de si, do seu papel na sociedade, passa pela reconstrução de sua identidade na condição da deficiência.
Ora, se pensarmos nos nomes que são atribuídos às pessoas com deficiência – incapazes, coitados, anjos, problemas, doentes, excepcionais etc., podemos entender o impacto desses na construção ou reconstrução da identidade – do que me chamam? Que valor é atribuído a esse nome? Que portas esse nome me abre ou fecha? Que auto-imagem me permite construir?
O que nos reporta à terminologia utilizada para designar essa parcela da população; não mais o “deficiente”, substantivo totalizador, não mais o “portador de deficiência”, afinal a deficiência não é algo que se porta, como um documento. “Pessoa com deficiência”, essa é a forma mais adequada, pois a deficiência não é um apêndice, mas algo que faz parte do sujeito, algo que o identifica tanto quanto outras coisas (o nome, a atividade, os gostos, características pessoais...).
O que nos leva a outros termos – especial, com necessidades especiais – esses são os termos da negação – é uma pessoa com deficiência, mas é como se não fosse, porque é especial. A deficiência, apresentada como algo indesejável, não deve ser nomeada; assim, ao chamar o sujeito de especial foge-se do confronto com sua real condição, que obviamente é incômoda, gera estranheza, desconforto. Afinal ninguém quer ser uma pessoa com deficiência intelectual, mas todos gostamos de nos sentir especiais, não é?
Nomear corretamente é uma tarefa importante, nem sempre fácil, mas essencial para as pessoas com deficiência. Nomes exprimem significados; significados permeiam atitudes; atitudes desencadeiam ações.

Profa Dra Celina Camargo Bartalotti
Terapeuta Ocupacional



Para ler mais sobre identidade:
CIAMPA, A. C. In: Lane, Silvia. (org.) Psicologia Social: O Homem em Movimento. Psicologia e Sociedade, v. 19, p. 17-18, 2007
CIAMPA, A. C. A Estória do Severino e a História da Severina - Um Ensaio de Psicologia Social. 1/8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2005. v. 1. 248 p.

21 de ago. de 2008

PARA FALAR DE DEFICIÊNCIA E COTIDIANO

Este é um tema bastante amplo sobre o qual a cada dia construo um novo olhar, um novo conceito, novos caracteres deste quebra-cabeça do vivo.
Existem temas bastante polêmicos que atualmente vêm me contaminando, de forma que pequenas intrigações e inquietações me fazer pensar naquilo que há algum tempo sugerimos neste blog tratar. Iniciamos com o grande tema “RETRATOS DO COTIDIANO”, e esta palavra me inspira a querer saber do que disponho para esse dia a dia. Como é possível fazer um retrato, uma fotografia de algo que pode acontecer e realmente fazer a diferença e quem sabe constituir-se como uma experiência?
Um pouco disso aconteceu por duas semanas seguidas nas quais pude acompanhar dois grupos de adolescentes e jovens com deficiência intelectual, numa jornada que dificilmente uma família que mora num extremo da cidade faria: cruzá-la para simplesmente chegar a um museu e ver quadros.
É... mas não foi bem assim, conto com um Programa Educativo existente na Pinacoteca do Estado de São Paulo, que recebe Públicos Especiais, o PEPE, que com seu formato oferece um espaço educativo onde a arte e cultura aproximam-se da condição que cada um tem de se apropriar do tema sugerido.
E agora eu pergunto se isto (o programa que oferece adaptação de materiais do museu) e aquilo (a minha disponibilidade e a de uma equipe que sustenta o propósito de acompanhar pessoas com deficiência em seu cotidiano e desenvolvimento, de assumir um grupo de garotos para cruzar a cidade através de trens metropolitanos) não se conectassem, que construção do cotidiano existiria?
É por isso que eu digo: “TENHAMOS CLAREZA DE NOSSAS POSSIBILIDADES E DE NOSSAS DISPONIBILIDADES PARA PODERMOS OFERECER BONS ENCONTROS SOCIAIS, EDUCATIVOS E CULTURAIS À PESSOA COM DEFICIÊNCIA EM SEU DIA-A-DIA”. São destes, e de outros pequenos fazeres que a vida se constrói.

Barbara Cristina Mello
Terapeuta Ocupacional